quarta-feira, 12 de julho de 2017

Witherfall​ - "Nocturnes And Requiems" (2017)


Independente

Mundo Metal [ Lançamento ]



Imagine-se caminhando por uma estrada sombria, o silêncio é sinistro e aterrador, só é interrompido pelo soprar do vento, trazendo consigo sussurros fantasmagóricos e horripilantes. Você se vê perdido e não sabe para qual lado deve prosseguir, o medo toma conta do seu ser e a paisagem parece mudar a todo instante, vultos são vistos deslizando por entres as árvores e cantos escuros, ou será apenas a sua mente te pregando peças? O terror é profundo, você não sabe o que esperar e tem certeza que não está sozinho. Agonia. Desespero. Você segue caminhando sem a menor pista do que vai acontecer ou aonde vai chegar...

Esta é a sensação ao ouvir "Nocturnes And Requiems". Um disco forte, profundo, repleto de camadas, nuances, e dono de um clima devastador. O ouvinte é imediatamente arremessado em uma viagem inóspita, diretamente ao desconhecido. A passagem é só de ida e a consequência da audição produz um único efeito colateral: vício imediato.

Se você gosta de bandas que produzem álbuns elaborados, onde cada detalhe é exaustivamente pensado, cada parte instrumental tem um motivo especial para estar ali e uma faixa sempre serve como ponte perfeita para a próxima, devo advertir que esta será uma audição das mais prazerosas possíveis. Aqui, o ouvinte sempre será surpreendido por uma mudança ríspida, uma influência clássica ou, simplesmente, por ritmos e trechos totalmente impensados. A criatividade desses caras parece não ter limites e, se não bastasse, o Witherfall é formado por músicos altamente gabaritados. Os integrantes do grupo passaram por bandas como White Wizzard, Circle II Circle e Iced Earth. Suas referências não poderiam ser mais interessantes e distintas. Nomes como Savatage, Mercyful Fate, Nevermore e Fates Warning são apenas alguns dos imediatamente associados ao mix de sonoridades apresentados no disco de estréia do quarteto estadunidense.

O guitarrista Jake Dreyer, atualmente no Iced Earth, mas com passagens por Kobra And The Lotus e White Wizzard, mostra todo o seu talento e mesmo sendo um músico virtuoso, prova que o feeling é uma de suas principais armas. Durante os 47 minutos de duração de "Nocturnes And Requiems", o que não faltam são riffs exuberantes, linhas intrincadas e que abusam da criatividade, além de solos dignos de grandes ícones do Metal contemporâneo. Há muito tempo uma performance individual não me impressionava tanto, mas se você, por um acaso, pensou que o Witherfall se resume apenas ao talento de um guitarrista criativo, esta redondamente enganado, pois a banda ainda tem em sua line up o excepcional vocalista Joseph Michael (ex-White Wizzard), dono de um alcance vocal impressionante, o jovem baixista Anthony Crawford que, logo em sua primeira experiência dentro do Metal, demonstra muita habilidade e domínio completo de seu instrumento, e o já saudoso baterista Adam Sagan (ex-Circle II Circle e Into Eternity), falecido no final de 2016, após ser derrotado por um câncer.

Musicalmente, somos vitimados por um espetáculo incrivelmente elaborado, onde músicos multifacetados exibem um amálgama de texturas alucinógenas, viagens frenéticas e questões aprofundadas sobre os limites da compreensão humana. Os temas abordados são insólitos, desesperadores e trazem mensagens subliminares, onde, apesar de não se tratar de um álbum conceitual, as composições se fundem de maneira perfeita para nos proporcionar um banquete nefasto de pesadelos, conclusões pessimistas sobre a vida e nos adverte sobre os seres da escuridão que nos rodeiam. Todo este contexto é abordado com muita competência e a impressão que temos é a de estarmos realmente adentrando em um universo diabólico, onde não existe esperança, misericórdia ou qualquer traço de bondade.


As duas primeiras faixas foram tão bem entrelaçadas que é praticamente impossível escutá-las separadamente. "Portrait" e "What We Are Dying For?" resumem muito bem todo o leque criativo de cada um dos músicos e se completam de uma maneira insana. "Portrait" inicia com uma parede sonora instigante, cheia de partes progressivas e vocalizações poderosas, mas exibe um refrão climático e de tom misterioso que remete diretamente à musicalidade do Mercyful Fate. Do meio para o final, o andamento cai e uma cadência amedrontadora prepara o terreno para o início avassalador de "What We Are Dying For?". Esta, por sua vez, nos faz viajar entre diversos andamentos, desde o mais rápido e agressivo, até partes acústicas belíssimas. Joseph Michael grita como Halford e, logo depois, muda totalmente a sua interpretação, trazendo timbres mais graves e sombrios, um show à parte.

Outros destaques ficam por conta das poderosas "End Of Time" e "Nobody Sleeps Here", ambas de longa duração, com diversas mudanças rítmicas e cheias de momentos empolgantes. "End Of Time" passa sua mensagem quase apocalíptica quando Joseph esbraveja de maneira ríspida e desesperançosa: "Eles envenenaram o bem/ A promessa do paraíso é uma mentira/ Nós vivemos nossas vidas a um passo do fim dos tempos". Já "Nobody Sleeps Here" é quase um conto de horror, onde um ser das trevas te atormenta e te faz reviver um pesadelo por vezes seguidas: "Vejo alguém de pé nas sombras/ Ele não virá para a luz/ Talvez eu vá até ele ver o que "tem reservado para mim"/ Não pode ser pior do que outra noite sem dormir/ Oh, eu orei para que isso tenha fim/ Esse sonho insuportável/ Não podia mais aguentar/ Não era como parecia/ Fui dormir em um outro mundo/ Em um sonho que não era o meu".

Mesmo com todo esse conteúdo, o álbum jamais soa auto indulgente e classificá-lo é uma tarefa ingrata. Fatalmente ele será rotulado como Power/Prog, mas, analisando de uma forma mais abrangente, é muito mais que isso. Temos influências nítidas de Heavy Metal clássico, passagens velozes que soam quase Thrash e ainda alguns elementos de Doom. É um disco variado e complexo, para muitas e atenciosas audições. A produção e mixagem ficaram sob a responsabilidade de Chris "Zeuss" Harris (Queensryche, Sanctuary, Rob Zombie, Hatebreed) e a capa é um trabalho do designer Kristian Wåhlin (King Diamond, Dissection, Bathory), que, para conceber a arte, recebeu todas as letras das músicas e por isso, o resultado mostra uma perfeita sincronia entre temática e visual.

Devo mencionar que se não fosse a lastimável perda de um músico tão talentoso como Adam Sagan, esta verdadeira obra de arte talvez nem tivesse conhecido a luz do dia, pois foi gravada em meados de 2014 e ainda não tinha previsão de lançamento. Com o triste falecimento do músico, os envolvidos no projeto resolveram se desdobrar para finalmente apresentar o álbum. Na página oficial da banda, os demais músicos deixaram uma mensagem onde, através de belíssimas palavras, explicam a importância de Adam para o grupo, segue um trecho: "Esta, como sabemos, é a última contribuição de Adam. Seu talento, paixão e personalidade é afirmada em todas as partes deste registro, já que ele era facilmente 1/3 da força criativa da banda. "Nocturnes e Requiems" foi um nome que Adam estranhamente criou em uma noite, quando estávamos descobrindo que os títulos que tínhamos para o álbum não soavam do jeito que queríamos. Apenas mais uma das suas imensas contribuições que se acumulavam dentro e fora da bateria. "- Adam, nós te amamos e é uma grande tragédia você não estar aqui pra ver o lançamento do disco. Você será sempre e para sempre um membro do Witherfall. Descanse em paz, cara!".

"Nocturnes And Requiems" é, sem dúvida, uma forma de homenagear postumamente a última participação em estúdio de Adam e, graças a isso, nós, os apreciadores da música pesada, ganhamos a oportunidade de conferir o melhor disco do gênero em 2017. Aonde estiver, Adam certamente deve estar orgulhoso (R.I.P.).


Nota: 9,5

*Nota do site The Metal Club: 9.46

Formação:

Anthony Crawford (baixo)
Jake Dreyer (guitarra)
Joseph Michael (vocal e teclado)
Adam Sagan (bateria)

Faixas:

01. Portrait 
02. What We Are Dying For 
03. Act II 
04. Sacrifice 
05. The Great Awakening 
06. End Of Time 
07. Finale 
08. Nobody Sleeps Here


Redigido por Fabio Reis​

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